Alcançar a utopia: português na Galiza

Quarta-feira, 11 de Setembro de 2019

Teresa Carro é professora de EOI e membro da DPG

Este artigo foi publicado originalmente no sermosgaliza

Este ano académico começa com uma novidade histórica no sistema de ensino público da Galiza, estou a falar do facto de termos, pela primeira vez, professores de língua portuguesa oficialmente reconhecidos como tal. Se já há uns anos que os nossos estudantes podem escolher como língua estrangeira o português, também é certo, e de justiça, dizer que esta matéria estava a ser lecionada por pessoas que tinham um empenho particular em desempenhar esta tarefa, fosse pelos motivos que fossem.

A estes professores que iniciaram o ensino do português no secundário só temos muito a agradecer por terem aberto este caminho e por terem sido capazes de solucionar todos os entraves que a administração colocou e tenta colocar todos os dias para que o português no secundário não seja uma realidade. Este grupo de docentes foi pioneiro no seu trabalho e por isso deve ser reconhecido.

Ora bem, as condições destes docentes nunca foram as ótimas. Estamos a falar de que se estava a lecionar uma matéria no sistema de ensino público que não tinha nenhum especialista nessa matéria, estamos a falar de que não houve formação específica para esta pessoas em todos estes anos ofertada pela Conselharia correspondente. Falamos de que quando um destes docentes faltava ao seu posto de trabalho era substituído por uma pessoa à que não se lhe exigia conhecimento na matéria, e como estas muitas.

Mas este mês de setembro ficará para a história porque se incorporam ao sistema de ensino público quatro pessoas com vaga na especialidade de português. Finalmente a administração resolveu convocar estas vagas há tanto desejadas. Mas convido para a reflexão: foram convocadas estas vagas apenas pela vontade desta Conselharia? Para mim, um absoluto não. Estas quatro vagas de português são o resultado duma reivindicação social história. Uma reivindicação abandeirada pelo movimento reintegracionista galego mas não só, pois o movimento nacionalista, em geral, sempre apoiou esta batalha, assim como outro tipo de coletivos que viam no caminho da aprendizagem do português uma saída para o galego, uma saída laboral, uma saída económica, etc.

Só temos que virar a cabeça atrás e lebrar quando ainda se faziam pintadas nas paredes com legendas tipo “ Português no ensino desde já” campanha que levou avante o MDL (Movimento Defesa da Língua) há 20 anos. Estamos a falar de mais de 20 anos de luta social para que o estudo do português no secundário seja uma relaidade. E hoje fazemos história, e o movimento social que manteve esta luta durante todos estes anos deve sentir imenso orgulho nisso. 

Nos últimos anos a associação DPG (Docentes de Português na Galiza) centrou muitos dos seus esforços em trabalhar para contribuir desde a profissionalidade neste objetivo e devemos agradecer a estas pessoas o grande trabalho voluntário que leva feito até hoje.

Que as nossas crianças e jovens possam aprender português no sistema público de ensino é fulcral para o futuro da nossa língua. A Galiza é uma potência lusófona com data de validade quase a expirar, mas com a aprendizagem de português a data de validade torna-se infinita. Desejo aos novos professores de língua portuguesa na Galiza o melhor no seu desempenho docente e que sempre sintam orgulho em saberem que têm um trabalho fruto duma conquista social, por vezes a utopia consegue-se

Sendo uma boa notícia, cabe alientar que as 4 vagas de livre acesso ofertadas apenas representam 0,48% do total das 834 ofertadas para o ensino secundário. E aliás, supõem regularizar a sitiação só de 6,6% dos centros que atualmente lecionam português na Galiza.

Acabam de ser aprovadas pelo governo galego as primeiras vagas oficiais de português no secundário

Por vez primeira na história o código 590015: português terá convocatória oficial conforme vinham reclamando diferentes entidades profissionais, sindicatos e agentes sócio-culturais.

É um passo muito pequeno ainda (apenas quatro vagas) mas inicia um novo cenário promissor.

Da DPG não podemos mais do que parabenizar a todas as pessoas dos diferentes âmbitos que levam reclamando a incorporação de medidas efetivas na promoção do ensino de português na Galiza e do cumprimento do roteiro marcado pela ILP-Paz andrade.

Na nossa opinião a quantidade de vagas convocadas é a todas luzes insuficiente para uma estimação que já ultrapassa os 50 centros de secundário a lecionarem português na atualidade – e que ficam por enquanto ainda sem vagas oficiais que assentem o trabalho que tem sido desenvolvido nesses centros.

Do ponto de vista do cumprimento da ILP Paz- Andrade ou até numa comparação com a atual convocação de vagas doutras línguas de idêntica importância curricular, a DPG considera o número totalmente por baixo das necessidades de atendimento profissional e de qualidade numa matéria que foi definida em 2014 como uma prioridade do governo na promoção do ensino de línguas.

Nesse sentido estas primeiras 4 vagas são um número mínimo que esperamos o governo tenha a bem multiplicar, no mínimo, por dez (40 vagas) em próximas convocatórias visando começar -desse modo sim- a dar cumprimento ao roteiro definido pela Lei Paz Andrade.

Para todas as pessoas comprometidas com a promoção do ensino de língua portuguesa é, apesar disso, motivo de grande alegria, hoje podemos celebrar os primeiros frutos do nosso trabalho no secundário.

Parabéns a todas!


Boletim

Terça-feira, 05 de Fevereiro de 2019

Maria J. Diaz Pinheiro foi professora de língua / literatura galegas e língua portuguesa no ensino secundário. Integrante, desde os respectivos anos de fundação, da Associação Galega da Língua e de Docentes de Português na Galiza, permanece e vai permanecer, apesar da reforma, envolvida no ativismo pela língua.

Como começaste a lecionar português?

Como? Na altura (ano académico 2001/2002), foi um sonho realizado, o resultado de uma perseverança de anos; visto agora, agi com certa temeridade e um qb de inconsciência por carecer de contacto com colegas que realizavam a mesma viagem. Isso veio depois.

Logo que fui transferida de Compostela para a escola Nossa Senhora dos Olhos Grandes de Lugo (1995), começámos a falar no departamento de língua da possibilidade de oferecermos a matéria, mas, naqueles anos carecíamos, de disponibilidade horária. Foi no ano 2001/02 que as circunstâncias do departamento o permitiram. No ano 2000, tinha sabido da existência de aulas de português noutras escolas da Galiza; com este aval, pedimos autorização à Direção e ao Claustro (na altura, ainda tinha algum poder), enviámos o requerimento à Inspeção Educativa e foi aceite. Apenas faltava contarmos com alunado suficiente para criar uma turma. Naquele primeiro ano, em 1º de Bacharelato inscreveram-se por volta de 10 pessoas, um sucesso visto que só em setembro nos foi notificada a aprovação.

Naquele tempo, vigorava um quadro legislativo que permitia, na teoria, dar aulas de português no ensino secundário como primeira ou segunda língua estrangeira. Na prática, para lecionar primeira língua, era necessária a existência de departamento de língua portuguesa, vagas e horário específico; porém -e continuamos na mesma- era uma fraude, uma ilusão porque nunca foi convocado um concurso. Como segunda língua, era possível ensiná-la em todos os centros de secundário da Galiza, dependendo da vontade da pessoa da Inspeção atribuída à escola, da própria escola e da disponibilidade horária do departamento. No entanto, apenas no Bacharelato o português era considerado segunda língua estrangeira, em igualdade com o francês, alemão ou italiano. Para o incluir em ESO, as dificuldades eram maiores ao existir uma regulamentação que priorizava francês ou, como alternativa, uma matéria prática, do género dum atelier de matemática, de plástica, etc. De aí que, se se tencionava introduzir a língua portuguesa, entrava-se em conflito com o professorado de francês, que já dispunha de escassas horas, salvo no primeiro ciclo de ESO devido a essa (quase) obrigatoriedade.

Como transcorreu a tua experiência ao longo destes anos?

Foi uma viagem com sentimentos encontrados: feliz e bem-sucedida no que diz respeito às aulas, ao alunado, aos projetos desenvolvidos; frustrante, pelos continuados empecilhos de parte de uma Administração que não só incumpre sistematicamente a Lei Paz Andrade, mas também obstaculiza com procedimentos diversos um percurso fluído na aprendizagem do alunado, sempre o grande prejudicado: restrição do número de matérias optativas em 2º de bacharelato (apenas 2) desde o ano 2003/2004 até que vigorou a LOMCE, redução significativa do número de sessões semanais com a LOMCE, mudanças na legislação em relação à ABAU na metade do ano académico em mais de uma ocasião, arbitrariedade nas escolas à hora da criação de turmas… por referir apenas alguns exemplos.

No decorrer dos anos, alunado e professora vivemos experiências marcantes nascidas das aulas: as viagens de quase cada ano (ora sós, ora com outras escolas -IES Ángel Fole, IES Dionísio Gamalho Fierros, aPorto júnior); a participação no Campeonato Internacional de Língua Portuguesa, chegando mesmo à final numa ocasião; a interação com escolas portuguesas por meio de eTwinning, a colaboração na homenagem ao Zeca Afonso para comemorar os 40 anos da 1ª atuação em Lugo… Para além disto, reconforta especialmente o vivido no dia-a-dia, o sucesso do alunado nas provas DIPLE do CAPLE, nas PAU e na ABAU, o facto de uma aluna da primeira promoção ser hoje professora de português numa escola de Línguas…

Quanto ao desempenho pessoal nas aulas, ganhei confiança no trabalho à medida em que contactei com outras pessoas e que atualizei/ampliei a formação. O isolamento do primeiro ano esvaiu-se com a cooperação, as equipas de trabalho, os bordões em que se converteram algumas pessoas. Nunca agradecerei o suficiente o que aprendi com colegas das Escolas de Línguas, nomeadamente com Joseph Ghamine ou Teresa Sobral e, ainda que com menor proximidade física, com Valentim Fagim, Antia Cortiças, Carme Saborido, Eduardo Maragoto, Maria Afonso, Maria José Sola… À DPG, à AGAL, a numerosos trabalhos da Através devo, entre outras experiências vividas, o ganho crescente em confortabilidade no decorrer da docência de português. E não apenas digo isto enquanto agradecimento: também para assinalar a importância da formação e do trabalho colaborativo para quem persegue uma docência viva e proveitosa. Já do lado institucional, acho que os cursos de integração PIALE constituem uma hipótese mesmo boa nem tanto para a aprendizagem -que também- como para estreitar laços e partilhar ideias entre o professorado (de secundário).

Como podemos alargar a presença do português no sistema educativo galego?

Gostava imenso era de conhecer a fórmula. Acho que é fundamental a perseverança no que se está a realizar.

Quanto ao lado institucional, precisa-se:

  • Mantermos comunicação periódica com a Conselharia de Educação de modo a recordar e exigir a obrigatoriedade de ser cumprida a lei que garante o ensino do português no secundário -e não apenas.
  • Reclamar da Conselharia divulgação nas escolas das possibilidades de lecionar português/criar turmas bilingues , de modo a os estabelecimentos de ensino se implicarem mais em favorecer o ensino da língua ou, quando menos, não o travarem.
  • Que, à hora da contratação de professorado, a Conselharia exija da pessoa contratada formação adequada para o labor docente (no mínimo, C1).
  • Requerer transparência dos estabelecimentos de ensino e da Inspeção Educativa à hora de serem constituídas turmas. A arbitrariedade não pode ser a norma.
  • Divulgação nos meios de comunicação de massas das carências que vivemos, mas também dos sucessos alcançados: é outro jeito de pressionarmos.

Já no que diz respeito ao trabalho enquanto coletivo de docentes e para além do labor referido nas alíneas precedentes, faz falta otimismo, força e união. O professorado do secundário, em geral, padece uma carga horária e de número de alunas que o deixa exausto à hora abrir outras hipóteses de trabalho; de outro lado, também há quem julgue a docência do português como um alívio por considerar que não é precisa uma implicação similar à de outras matérias e folga-se um bocado. Por um ou outro motivo, acho fundamentais as parcerias entre docentes, a criação de redes, a formação constante. Ou o que é o mesmo: continuar, ampliar e implicar mais pessoas no magnífico labor que se está a desenvolver: avisar, animar, acordar, empurrar, agitar a malta.

Uma apresentação pessoal e do Ciclo onde foi criada a secção bilíngue.

Sou docente do Ciclo Formativo Superior de Desenho de Móveis no Centro Integrado de Formação Profissional Valentim Paz Andrade de Vigo. O mencionado ciclo é de nível superior e faz parte da família profissional da Madeira e do Móvel. É um ciclo com muitos anos de experiência e com vários prémios alcançados. Os nossos alunos são de diferentes lugares da Galiza e também de fora dela, nomeadamente, na zona d’o Berço.

Depois da crise, nos últimos dois anos, cresceu o interesse pela indústria do setor, aumentando o número de profissionais nesta área.

Eu sou filho da emigração galega do Brasil. Nasci e vivi em São Paulo até os dezasseis anos. Estudei na primária no Brasil. Aos 16 anos tive uma professora argentina que me ensinou o castelhano.

Em Espanha estudei Arquitetura na Escola Técnica Superior de Arquitectura (E.T.S.A.) na Corunha.

Desde 1999, que sou docente, no qual vim para professor em 2005 na Escola de Formação Profissional Valentim Paz Andrade.

Em que momento surgiu a vontade de oferecer esta secção bilíngue?

Surgiu no ano de 2011, quando uma colega me sugeriu para fazer o curso de Português na Escola Oficial de Idiomas (EOI) de Vigo.

Com a realização deste curso, voltei às origens linguísticas, no qual conclui com sucesso os níveis de B1, B2 e C1 de Língua Portuguesa. Tive a sorte de ter fantásticos professores (Miguel, Felipe, Salvador…), no qual, ainda hoje mantenho o contacto com eles e com colegas de turma.

Há vários anos que tinha a ideia de aproximar-me mais da minha língua materna, porque já tinha saudades de falar português. A proximidade de Vigo a Portugal, a existência de leis que favorecem o uso do português na Galiza, também foram determinantes para que eu quisesse levar esta iniciativa até ao Alfonso Solla (Diretor da escola Valentim Paz Andrade), escola onde sou docente, para criar uma secção de bilíngue de Português, no ciclo superior de desenho de móveis. A resposta por parte da direção foi aceite de forma positiva e com grandes expectativas.

No teu centro escolar, como é valorizada esta iniciativa?

Existiram vários tipos de reação à minha proposta, mas a maioria ficou agradada e interessada. A Direção da escola foram os primeiros a ver a proposta como uma excelente ideia, sendo mesmo os principais responsáveis para a sua realização. Alfonso Solla (Diretor), Félix García (Secretário), José Manuel Pazos (Vice-director) Maria José Macía (Chefe de Estudos) são os verdadeiros obreiros por esta nova iniciativa, da criação da secção bilíngue de português.

Como está a ser a reação da turma, até o momento?

Sendo sincero, estava um pouco receoso em relação à reação da turma, sobre esta ideia de leccionar aulas em português. Mas a turma acabou por me surpreender, pela positiva. No inicio, eu expliquei qual era a minha ideia para o que pretendia com as aulas de português e que iria falar em português nas aulas, para começar a ambientar os alunos com este idioma.

Eu fiquei super surpreendido e feliz, pois os alunos, passado algumas aulas, pediam para continuar a dar aulas em português, que estavam a gostar imenso da ideia.

Mario Viéitez e David Almeida. Foto de Dana Díaz Díaz.

Neste ponto, posso agradecer a ajuda do nosso primeiro auxiliar de conversa de português, David Almeida, que veio aumentar a “família luso-falante”, que nos veio mostrar um pouco mais de Portugal e da sua cultura.

Como recomendarias outros/as docentes a abrirem secções bilíngues em português?

Quando um político catalão falou que “…os espanhóis têm mais proximidade com os portugueses…” , fiquei bastante feliz.

Poucas pessoas sabem que o Galego e o Português nasceram juntos, apenas a História, os encarregou de levá-los por caminhos diferentes. No meu ver, “porque temos que dividir ou separar, se podemos unir e somar?”

Na minha opinião, se trabalharmos juntos, será melhor e vamos ser capazes de oferecer mais e melhores oportunidades para todos. E não esquecendo a minha querida mãe, que sempre me dizia um ditado popular, bem conhecido “o saber não ocupa lugar!”.

O projeto poderá estar ligado a futuros intercâmbios, viagens ou estadias do aluno galego em Portugal?

Na escola onde lecciono aulas, existe a Carta Europeia. Há vários anos que os alunos fazem intercâmbios para outros países, através dos programas de Erasmus+ e Leonardo.

Está muito claro que esse é outro dos objetivos. Facilitar e melhorar os intercâmbios e estadias dos nossos alunos em Portugal e quem sabe, Brasil e outros países luso-falantes. Também pensamos na possibilidade de que estudantes de Portugal venham fazer estadias no nosso Centro.

Sendo Vigo um contexto tão pouco galegófono, acha que o ensino em português pode melhorar as competências dos estudantes em galego?

Claro! Nos primeiros dias que falei com a minha turma de que tinham que tentar falar português. Eles o que teriam de fazer era falar o seu melhor galego, esse galego com sotaque ‘aportuguesado’ e logo a seguir, vinha um riso! Aprender o Português favorece o melhor conhecimento do Galego.

Qualquer outra questão que quiseres acrescentar que possa ser de utilidade para outras/os docentes.
Agradecer a oportunidade de poder falar do que estamos a fazer e de animar mais pessoas na difusão e conhecimento do Português e de toda a cultura que está detrás. Muito obrigado.

Turma de 1º C.S. de Desenho de Móveis. Foto de Dana Díaz Díaz.

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