Troca-troca – português para adultos

Sexta-feira, 28 de Outubro de 2011

Crónica

III Encontro de Didática do Português

xurxo

Xurxo F. Carballido

Por Xurxo Fernández Carballido

Inserido no III Encontro de didática do português, desenvolveu-se o troca-troca entre docentes e profissionais do ensino de línguas para adultos.

O troca-troca resultou muito interessante. Na verdade não houve um troca-troca de materiais didáticos mas sim um intercâmbio muito produtivo de opiniões e estratégias para o ensino e aprendizagem da competência de expressão escrita.

No grupo de docentes que trabalharam nesta sessão havia professores de PLE, PL2, Português língua materna e outros docentes de galego e outras línguas, o que converteu todas as opiniões em muito produtivas, por procederem de diferentes realidades do ensino.

Houve uma primeira apresentação da problemática específica da escrita do português no contexto galego e também dos critérios de avaliação que se utilizam para avaliar a produção escrita.

Na atualidade o sistema de ensino tem uma grande preocupação pelos erros ortográficos, mas houve algum consenso em pôr em destaque uma abordagem da escrita no seu conjunto, onde se potencie a coerência textual, estruturas coesas e equilibradas, e se trabalhe com conetores, um dos principais itens esquecidos nas salas de aula. Quer dizer, que se potencie o trabalho no seu conjunto e não um treino especificamente ortográfico.

Produziu-se muita reflexão sobre o problema da pontuação, que tem uma grande repercussão na estrutura textual, os formandos não têm o hábito de se preocupar pela pontuação, pela estrutura do texto, pela coerência da produção escrita, nem por ligar ideias através de conetores. Isto provoca que muitas produções escritas tenham problemas graves de compreensão.

Todos os participantes ao troca-troca puseram em destaque a importância deste tipo de atividade pedagógica, porque provoca reflexões coletivas sobre as práticas individuais dentro das nossas salas de aula.

Uma das grandes preocupações é fazer atividades pedagógicas atraentes para a competência da expressão escrita, os problemas em criar textos, a falta de imaginação (do docente e dos estudantes) e motivações. Trabalhar textos utilitários, textos de interesse para os alunos, jornalísticos, mesmo traduções pode ser motivante para os formandos.

As conclusões reflexivas foram que temos (os docentes) de tirar o pânico de trabalhar a escrita dentro da sala de aula, para que a composição de textos escritos não seja vista sempre como uma tarefa para trabalhar em casa de modo individual, mas sim trabalhar em conjunto e procurar soluções para as dúvidas gerais dentro da dinâmica da turma.

A DPG recebe o prémio anual da fundação Via Galego

Sexta-feira, 21 de Outubro de 2011

Na passada terça-feira, 18 de outubro de 2011, coincidindo com a entrega do quantioso prémio Leya a um novel autor português foi o dia em que a fundação Via Galego escolheu (devido a sua coincidência «com o segundo aniversário da histórica manifestação em defesa da língua galega») para comunicar a outorgação do galardão à DPG – Associação de Docentes de Português na Galiza.

A DPG recebe este reconhecimento, na sua segunda edição, que distingue pessoas ou entidades «que melhorem as relações da Galiza com os outros territórios do seu sistema linguístico». Em palavras do presidente da fundação, Carlos Callón, «um dos grandes problemas da nossa cultura é a falta de conhecimento e comunicação com os outros territórios do sistema linguístico a que pertencemos». Igualmente, salientou que «um melhor relacionamento não apenas teria bons resultados culturais ou sociais, mas também económicos».

O júri dos prémios Via Galego é integrado polo padroado da fundação: Carlos Callón (presidente), Susana Romero (vice-presidenta), Iria Taibo (secretária) e os vogais Xavier Alcalá, Miguel Barros, Fátima Braña, Quico Cadaval, Pilar Garcia Negro, Carmela González Bóo, Adolfo Muíños, Bernardo Penabade, Fran Rei, Henrique Sáez Ponte e Xavier Vence.

Crónica do III Encontro de Didática do Português

Joseph Ghanime

Escrita: cruzamento de vontades, competências e culturas foi o título que Paulo Feytor Pinto escolheu para abrir o III Encontro de Didática do Português, organizado pela DPG em Lugo. O ex-presidente da APP (Associação de Professores de Português de Portugal) conseguiu seduzir os assistentes com novas formas de explorar a escrita nas aulas, muito para além das rotineiras encomendas de redações para serem feitas em casa.

Feytor descreveu do princípio ao fim uma sequência didática levada às aulas entre janeiro e setembro de 2010 com uma turma do segundo ciclo de escolaridade. Aproveitando a circunstância favorável de contar com uma estudante chinesa, os alunos e alunas realizaram um conjunto de atividades linguísticas que os aproximaram da língua e cultura do país de origem da sua colega de turma.

No decorrer da sequência didática, além de outras tarefas de apoio, os alunos e alunas de Feytor:

  • leram de forma extensiva o conto A Salvação de Wang-Fô de Marguerite Yourcenar, usando alguns excertos omitidos para reconstruir o texto original, e assisistindo à projeção de um filme de desenhos animados em francês.
  • redigiram um resumo do conto, sequenciando a produção do texto em diversas fases progressivas.
  • ouviram a tradução para o chinês do conto, encomendada à própria colega chinesa da turma e lida pelo pai da mesma na sala.
  • debateram sobre os traços mais marcantes da língua chinesa.
  • ouviram a declamação de um poema chinês pela aluna, com esclarecimentos sobre o significado e a tradução do mesmo, envolvendo a visualização do texto em carateres ideográficos e adaptação ao alfabeto latino.
  • criaram uma tradução do poema de maneira coletiva.

No final da palestra, Feytor debruçou-se sobre a avaliação e correção das tarefas escritas que faziam parte da sequência didática. Muito para além de uma avaliação baseada no erro gramatical e ortográfico, as seguintes variáveis de correção foram propostas: extensão do texto; adequação à tipologia textual; progressão das ideias; pertinência da informação dada; coesão; articulação interfrássica; morfossintaxe; e, por último, sim, ortografia.

Os princípios que nortearam toda a experiência de aprendizagem foram sete: escrita como processo, autonomia, diversidade metodológica, integração de competências, adequação ao contexto, educação intercultural e recurso a TIC. De forma aberta ou subentendida, estes setes princípios conseguiram pôr em causa muitas das inércias do nosso trabalho rotineiro de aulas na hora de trabalhar com a escrita.

No que diz respeito à autonomia, Feytor sublinhou a conveniência de responsabilizar os formandos, envolvendo-os na tomada de decisões sobre o conteúdo das tarefas de aula. O contexto, por sua vez, foi tido em consideração ao adaptar a progressão da sequência didática a diversos momentos relevantes no ano académico, como a Semana da Escola. Mostrou-se também um aberto defensor da continuidade pedagógica, no sentido de os docentes tomarem conta das mesmas turmas durante vários anos seguidos.

Trabalhar a escrita como processo, e não apenas como resultado, levar-nos-ia a dar a importância devida às fases prévias e posteriores à própria criação textual: a preparação e a revisão, geralmente pouco ou nada trabalhadas nas aulas. O próprio momento de execução ou produção do texto é passível de ser trabalhado, in situ, nas aulas, para o qual cumpre alargar o tempo das sessões – reivindicação que Feytor já formulara no I Encontro da DPG – e aproximar-se do formato de atelier de escrita.

Já na defesa da interculturalidade, Feytor revelou-se original, corajoso e empenhado. Deixou claro que a presença de alunos de diversas procedências nas turmas não constitui para ele um empecilho, antes um desafio e uma grande vantagem. A educação intercultural não age apenas enquanto meio de conhecimento ou integração do outro, mas também enquanto única maneira de chegar ao conhecimento de nós próprios: daí que as turmas com clara predominância de alunos portugueses precisem desse tipo de formação em igual ou maior grau do que as turmas ostensivamente multiétnicas.

Crónica do III Encontro de Didática do Português

João Carlos Gonçalves de Matos

ESE de Paula Frassinetti, Porto

na perspectiva do aluno, escrever (um texto, por exemplo) não é fácil, exige esforço, concentração, persistência e capacidade de avaliação. Já naperspectiva do professor, ensinar a escrever (um texto) dá muito trabalho, obriga a uma planificação cuidada e específica do domínio processual da escrita e implica uma atitude madura e consciente de respeito e abertura perante as diferentes opções que o texto possibilita e arrasta.



No primeiro dia outubro, ainda com um cheiro a verão, tive a oportunidade de frequentar o III Encontro de Didática do Português, realizado em Lugo, Galiza, promovido pela Associação de Docentes de Português na Galiza, com sede em Santiago de Compostela e da qual sou associado colaborador.

Nesta terceira edição realizou-se um trabalho reflexivo sobre a expressão escrita nas aulas. Os palestrantes foram Paulo Feytor Pinto, ex-presidente da Associação de Professores de Português, e Pedro Sena-Lino, escritor e professor de Escrita Criativa.

Paulo Feytor Pinto apresentou, pela manhã, uma comunicação de muito valor subordinada ao tema: “Escrita: cruzamento de vontades, competências e culturas.” Por sua vez, no período vespertino do encontro, tive a oportunidade de participar numa workshop de Escrita Criativa dinamizada pelo principal mentor da “Companhia do Eu”, centro de cursos de criatividade e cultura fundado em 2005. De salientar que, a partir de 2006, especializou-se como escola de escrita, oferecendo cursos que se distinguem pela sua inovação e criatividade e pelo cruzamento de artes e vontades.

A frequência desta workshop que apresenta um título delicioso “Para aprender a fumar vulcões: workshop de escrita criativa para professores de português” foi um momento muito especial e enriquecedor para a minha formação como professor.

De facto, no meu quotidiano de professor de português do segundo ciclo do ensino básico, deparo-me com as crescentes dificuldades sentidas pelos alunos ao nível da escrita e da leitura no actual contexto escolar de todo o ensino básico. Tendo em conta o que tem sido o ensino/aprendizagem da escrita na disciplina de português, em vários níveis escolares, tanto em termos dos currículos como das respectivas práticas na sala de aula, sinto esta necessidade de refletir sobre o processo da escrita, não como produto acabado e apenas de valor literário, mas como competência em construção e de interesse pedagógico e didático.

Este momento de formação permitiu-me verificar as potencialidades de desenvolver estratégias de Escrita Criativa nos meus alunos. Várias perguntas foram respondidas: o seu público-alvo, as suas potencialidades e estratégias associadas e, por fim, o seu significado científico -pedagógico, enquanto ferramenta de apoio à leitura e à escrita na sala de aula.

Foi possível, ainda, anotar alguns vetores relacionados com a escrita e com a criatividade linguística. Foram referidas algumas questões como: a coexistência da escrita com outras competências da língua, as relações da escrita com capacidades que derivam da organização e funcionamento da mente humana, a relação entre o código oral e o código escrito, os critérios da sua aquisição e do seu desenvolvimento, as ligações da escrita com a sua época, por fim, a ligação entre escrita e criatividade.

A workshop foi desenvolvida em três momentos complementares: primeiro, “eu vou escrever”, segundo, “os alunos vão escrever” (técnicas e práticas a importar para a sala de aula e, terceiro, preparação de uma aula e respetivos conteúdos para a aplicação da Escrita Criativa.

Pedro Sena-Lino partilhou as dinâmicas que devemos imprimir na sala de aula assente no pressuposto “fazer primeiro, explicar depois”. Nesse momento, devemos deixar o aluno envolver-se no processo educativo e, só depois de criada uma experiência, oferecer os suportes teóricos. Outro pressuposto deve ser “refazer-se: de professor para guia”. Neste caso, o formador destacou a importância de o docente abandonar a postura de professor: sentar-se de forma diferente, expor o exercício de forma diferente, estimular o seu interesse de forma diferente, dando a entender que a teoria, a “matéria”, deixa de ser importante.

O formador apresentou as ferramentas mais ajustadas para uso na aula com destaque para a importância da “lista de palavras”, a mudança do “ponto de vista do narrador”, a pertinência dos “intertextos”, ou seja, gerar encontros pessoais dos alunos com as obras canónicas e utilizá-las como motores da própria escrita. Paralelamente, foi abordada a questão do “enredo” onde se deu valor ao fornecimento de ferramentas práticas, dinâmicas e concretas para analisar uma história e planificar a escrita de um texto ficcional ou utilitário.

Por fim, deliciei-me ao saber da importância das novas palavras na língua portuguesa no processo de escrita narrativa. De facto, é um privilégio para o professor de português poder usar o background cultural dos alunos e a sua inventividade para criar um vocabulário próprio que lhes suscite interesse na história da língua e na análise das linguagens próprias de determinados autores como é o exemplo do moçambicano Mia Couto.

Num momento final da workshop, foi-me possível adquirir algumas ideias sobre a pedagogia da escrita. Deste modo, depois de identificada a metamorfose do ensino da escrita nos programas de Português, foi-me, de certa forma, mais fácil, problematizar/clarificar a acepção do termo ”escrita” em pedagogia, valorizar o uso criativo da língua, valorizar uma pedagogia da criatividade, vislumbrar o percurso para desenvolver tal capacidade, identificar algumas técnicas de intervenção para trabalhar a criatividade na escrita, apreender alguns dos pressupostos teóricos inerentes ao ato de escrever, ter consciência de algumas tipologias de tarefas e atividades de produção verbal, bem como adquirir alguns princípios pedagógicos e didáticos que devem ser tidos em conta por quem ensina a escrever.

Em jeito de conclusão, devo destacar a criatividade como ferramenta fundamental no processo ensino/aprendizagem da leitura e da escrita, sublinhando a importância de estratégias adequadas às necessidades dos alunos de hoje, sem perder de vista, contudo, a pedagogia/necessidade do esforço individual implicado no ato de escrever.

Efetivamente, como nos diz Pedro Sena- Lino, na escrita criativa aplica-se a Lei de Lavoisier: “tudo se transforma”. Dessa forma devemos “aproveitar o resultado dos exercícios escritos para proceder à aplicação de conceitos teóricos, partindo dos seus textos (dos alunos) para a teoria e para os textos consagrados.”

António Martins

Mestre em Ensino da Língua e da Literatura Portuguesas