Uma apresentação pessoal e do Ciclo onde foi criada a secção bilíngue.

Sou docente do Ciclo Formativo Superior de Desenho de Móveis no Centro Integrado de Formação Profissional Valentim Paz Andrade de Vigo. O mencionado ciclo é de nível superior e faz parte da família profissional da Madeira e do Móvel. É um ciclo com muitos anos de experiência e com vários prémios alcançados. Os nossos alunos são de diferentes lugares da Galiza e também de fora dela, nomeadamente, na zona d’o Berço.

Depois da crise, nos últimos dois anos, cresceu o interesse pela indústria do setor, aumentando o número de profissionais nesta área.

Eu sou filho da emigração galega do Brasil. Nasci e vivi em São Paulo até os dezasseis anos. Estudei na primária no Brasil. Aos 16 anos tive uma professora argentina que me ensinou o castelhano.

Em Espanha estudei Arquitetura na Escola Técnica Superior de Arquitectura (E.T.S.A.) na Corunha.

Desde 1999, que sou docente, no qual vim para professor em 2005 na Escola de Formação Profissional Valentim Paz Andrade.

Em que momento surgiu a vontade de oferecer esta secção bilíngue?

Surgiu no ano de 2011, quando uma colega me sugeriu para fazer o curso de Português na Escola Oficial de Idiomas (EOI) de Vigo.

Com a realização deste curso, voltei às origens linguísticas, no qual conclui com sucesso os níveis de B1, B2 e C1 de Língua Portuguesa. Tive a sorte de ter fantásticos professores (Miguel, Felipe, Salvador…), no qual, ainda hoje mantenho o contacto com eles e com colegas de turma.

Há vários anos que tinha a ideia de aproximar-me mais da minha língua materna, porque já tinha saudades de falar português. A proximidade de Vigo a Portugal, a existência de leis que favorecem o uso do português na Galiza, também foram determinantes para que eu quisesse levar esta iniciativa até ao Alfonso Solla (Diretor da escola Valentim Paz Andrade), escola onde sou docente, para criar uma secção de bilíngue de Português, no ciclo superior de desenho de móveis. A resposta por parte da direção foi aceite de forma positiva e com grandes expectativas.

No teu centro escolar, como é valorizada esta iniciativa?

Existiram vários tipos de reação à minha proposta, mas a maioria ficou agradada e interessada. A Direção da escola foram os primeiros a ver a proposta como uma excelente ideia, sendo mesmo os principais responsáveis para a sua realização. Alfonso Solla (Diretor), Félix García (Secretário), José Manuel Pazos (Vice-director) Maria José Macía (Chefe de Estudos) são os verdadeiros obreiros por esta nova iniciativa, da criação da secção bilíngue de português.

Como está a ser a reação da turma, até o momento?

Sendo sincero, estava um pouco receoso em relação à reação da turma, sobre esta ideia de leccionar aulas em português. Mas a turma acabou por me surpreender, pela positiva. No inicio, eu expliquei qual era a minha ideia para o que pretendia com as aulas de português e que iria falar em português nas aulas, para começar a ambientar os alunos com este idioma.

Eu fiquei super surpreendido e feliz, pois os alunos, passado algumas aulas, pediam para continuar a dar aulas em português, que estavam a gostar imenso da ideia.

Mario Viéitez e David Almeida. Foto de Dana Díaz Díaz.

Neste ponto, posso agradecer a ajuda do nosso primeiro auxiliar de conversa de português, David Almeida, que veio aumentar a “família luso-falante”, que nos veio mostrar um pouco mais de Portugal e da sua cultura.

Como recomendarias outros/as docentes a abrirem secções bilíngues em português?

Quando um político catalão falou que “…os espanhóis têm mais proximidade com os portugueses…” , fiquei bastante feliz.

Poucas pessoas sabem que o Galego e o Português nasceram juntos, apenas a História, os encarregou de levá-los por caminhos diferentes. No meu ver, “porque temos que dividir ou separar, se podemos unir e somar?”

Na minha opinião, se trabalharmos juntos, será melhor e vamos ser capazes de oferecer mais e melhores oportunidades para todos. E não esquecendo a minha querida mãe, que sempre me dizia um ditado popular, bem conhecido “o saber não ocupa lugar!”.

O projeto poderá estar ligado a futuros intercâmbios, viagens ou estadias do aluno galego em Portugal?

Na escola onde lecciono aulas, existe a Carta Europeia. Há vários anos que os alunos fazem intercâmbios para outros países, através dos programas de Erasmus+ e Leonardo.

Está muito claro que esse é outro dos objetivos. Facilitar e melhorar os intercâmbios e estadias dos nossos alunos em Portugal e quem sabe, Brasil e outros países luso-falantes. Também pensamos na possibilidade de que estudantes de Portugal venham fazer estadias no nosso Centro.

Sendo Vigo um contexto tão pouco galegófono, acha que o ensino em português pode melhorar as competências dos estudantes em galego?

Claro! Nos primeiros dias que falei com a minha turma de que tinham que tentar falar português. Eles o que teriam de fazer era falar o seu melhor galego, esse galego com sotaque ‘aportuguesado’ e logo a seguir, vinha um riso! Aprender o Português favorece o melhor conhecimento do Galego.

Qualquer outra questão que quiseres acrescentar que possa ser de utilidade para outras/os docentes.
Agradecer a oportunidade de poder falar do que estamos a fazer e de animar mais pessoas na difusão e conhecimento do Português e de toda a cultura que está detrás. Muito obrigado.

Turma de 1º C.S. de Desenho de Móveis. Foto de Dana Díaz Díaz.