Maria J. Diaz Pinheiro foi professora de língua / literatura galegas e língua portuguesa no ensino secundário. Integrante, desde os respectivos anos de fundação, da Associação Galega da Língua e de Docentes de Português na Galiza, permanece e vai permanecer, apesar da reforma, envolvida no ativismo pela língua.

Como começaste a lecionar português?

Como? Na altura (ano académico 2001/2002), foi um sonho realizado, o resultado de uma perseverança de anos; visto agora, agi com certa temeridade e um qb de inconsciência por carecer de contacto com colegas que realizavam a mesma viagem. Isso veio depois.

Logo que fui transferida de Compostela para a escola Nossa Senhora dos Olhos Grandes de Lugo (1995), começámos a falar no departamento de língua da possibilidade de oferecermos a matéria, mas, naqueles anos carecíamos, de disponibilidade horária. Foi no ano 2001/02 que as circunstâncias do departamento o permitiram. No ano 2000, tinha sabido da existência de aulas de português noutras escolas da Galiza; com este aval, pedimos autorização à Direção e ao Claustro (na altura, ainda tinha algum poder), enviámos o requerimento à Inspeção Educativa e foi aceite. Apenas faltava contarmos com alunado suficiente para criar uma turma. Naquele primeiro ano, em 1º de Bacharelato inscreveram-se por volta de 10 pessoas, um sucesso visto que só em setembro nos foi notificada a aprovação.

Naquele tempo, vigorava um quadro legislativo que permitia, na teoria, dar aulas de português no ensino secundário como primeira ou segunda língua estrangeira. Na prática, para lecionar primeira língua, era necessária a existência de departamento de língua portuguesa, vagas e horário específico; porém -e continuamos na mesma- era uma fraude, uma ilusão porque nunca foi convocado um concurso. Como segunda língua, era possível ensiná-la em todos os centros de secundário da Galiza, dependendo da vontade da pessoa da Inspeção atribuída à escola, da própria escola e da disponibilidade horária do departamento. No entanto, apenas no Bacharelato o português era considerado segunda língua estrangeira, em igualdade com o francês, alemão ou italiano. Para o incluir em ESO, as dificuldades eram maiores ao existir uma regulamentação que priorizava francês ou, como alternativa, uma matéria prática, do género dum atelier de matemática, de plástica, etc. De aí que, se se tencionava introduzir a língua portuguesa, entrava-se em conflito com o professorado de francês, que já dispunha de escassas horas, salvo no primeiro ciclo de ESO devido a essa (quase) obrigatoriedade.

Como transcorreu a tua experiência ao longo destes anos?

Foi uma viagem com sentimentos encontrados: feliz e bem-sucedida no que diz respeito às aulas, ao alunado, aos projetos desenvolvidos; frustrante, pelos continuados empecilhos de parte de uma Administração que não só incumpre sistematicamente a Lei Paz Andrade, mas também obstaculiza com procedimentos diversos um percurso fluído na aprendizagem do alunado, sempre o grande prejudicado: restrição do número de matérias optativas em 2º de bacharelato (apenas 2) desde o ano 2003/2004 até que vigorou a LOMCE, redução significativa do número de sessões semanais com a LOMCE, mudanças na legislação em relação à ABAU na metade do ano académico em mais de uma ocasião, arbitrariedade nas escolas à hora da criação de turmas… por referir apenas alguns exemplos.

No decorrer dos anos, alunado e professora vivemos experiências marcantes nascidas das aulas: as viagens de quase cada ano (ora sós, ora com outras escolas -IES Ángel Fole, IES Dionísio Gamalho Fierros, aPorto júnior); a participação no Campeonato Internacional de Língua Portuguesa, chegando mesmo à final numa ocasião; a interação com escolas portuguesas por meio de eTwinning, a colaboração na homenagem ao Zeca Afonso para comemorar os 40 anos da 1ª atuação em Lugo… Para além disto, reconforta especialmente o vivido no dia-a-dia, o sucesso do alunado nas provas DIPLE do CAPLE, nas PAU e na ABAU, o facto de uma aluna da primeira promoção ser hoje professora de português numa escola de Línguas…

Quanto ao desempenho pessoal nas aulas, ganhei confiança no trabalho à medida em que contactei com outras pessoas e que atualizei/ampliei a formação. O isolamento do primeiro ano esvaiu-se com a cooperação, as equipas de trabalho, os bordões em que se converteram algumas pessoas. Nunca agradecerei o suficiente o que aprendi com colegas das Escolas de Línguas, nomeadamente com Joseph Ghamine ou Teresa Sobral e, ainda que com menor proximidade física, com Valentim Fagim, Antia Cortiças, Carme Saborido, Eduardo Maragoto, Maria Afonso, Maria José Sola… À DPG, à AGAL, a numerosos trabalhos da Através devo, entre outras experiências vividas, o ganho crescente em confortabilidade no decorrer da docência de português. E não apenas digo isto enquanto agradecimento: também para assinalar a importância da formação e do trabalho colaborativo para quem persegue uma docência viva e proveitosa. Já do lado institucional, acho que os cursos de integração PIALE constituem uma hipótese mesmo boa nem tanto para a aprendizagem -que também- como para estreitar laços e partilhar ideias entre o professorado (de secundário).

Como podemos alargar a presença do português no sistema educativo galego?

Gostava imenso era de conhecer a fórmula. Acho que é fundamental a perseverança no que se está a realizar.

Quanto ao lado institucional, precisa-se:

  • Mantermos comunicação periódica com a Conselharia de Educação de modo a recordar e exigir a obrigatoriedade de ser cumprida a lei que garante o ensino do português no secundário -e não apenas.
  • Reclamar da Conselharia divulgação nas escolas das possibilidades de lecionar português/criar turmas bilingues , de modo a os estabelecimentos de ensino se implicarem mais em favorecer o ensino da língua ou, quando menos, não o travarem.
  • Que, à hora da contratação de professorado, a Conselharia exija da pessoa contratada formação adequada para o labor docente (no mínimo, C1).
  • Requerer transparência dos estabelecimentos de ensino e da Inspeção Educativa à hora de serem constituídas turmas. A arbitrariedade não pode ser a norma.
  • Divulgação nos meios de comunicação de massas das carências que vivemos, mas também dos sucessos alcançados: é outro jeito de pressionarmos.

Já no que diz respeito ao trabalho enquanto coletivo de docentes e para além do labor referido nas alíneas precedentes, faz falta otimismo, força e união. O professorado do secundário, em geral, padece uma carga horária e de número de alunas que o deixa exausto à hora abrir outras hipóteses de trabalho; de outro lado, também há quem julgue a docência do português como um alívio por considerar que não é precisa uma implicação similar à de outras matérias e folga-se um bocado. Por um ou outro motivo, acho fundamentais as parcerias entre docentes, a criação de redes, a formação constante. Ou o que é o mesmo: continuar, ampliar e implicar mais pessoas no magnífico labor que se está a desenvolver: avisar, animar, acordar, empurrar, agitar a malta.