No passado dia 24 de janeiro, a associação Docentes de Português na Galiza organizou um encontro aberto a todo o professorado de português com o objetivo de favorecer o conhecimento mútuo entre profissionais da área e criar um espaço de partilha de experiências e reflexão conjunta sobre os principais desafios do ensino do português no sistema educativo galego.
A jornada teve lugar em Compostela, na Casa do Taberneiro, e iniciou-se com a receção e apresentação das pessoas participantes, que foram distribuídas em subgrupos organizados em três mesas correspondentes a diferentes áreas profissionais: Ensino Secundário, Formação Profissional e Escolas Oficiais de Idiomas (EOI)/Universidade. Após o intervalo, realizou-se uma mesa conjunta de conclusões e propostas, na qual foram apresentadas as principais linhas de reflexão surgidas nos diferentes grupos.
O programa incluiu ainda uma apresentação prática das obras Ortografia do português passo a passo e Pronúncia do português passo a passo, da Através Editora, com a participação dos seus autores, Joseph Ghanime e Valentim Fagim. A jornada terminou com a assembleia geral da associação.

Ensino secundário: captação, estabilidade e desafios estruturais
Na mesa dedicada ao ensino secundário, a discussão centrou-se, em primeiro lugar, nas resistências do alunado ao estudo sistemático da língua portuguesa, associadas ainda à persistência de alguns preconceitos. Neste contexto, destacou-se a necessidade de o professorado assumir também um papel ativo na divulgação e valorização da disciplina, como forma de captar novo alunado e de estabilizar o já existente.
Entre as estratégias partilhadas, salientaram-se ações informativas em escolas de ensino primário, a apresentação do português como primeira língua estrangeira — tanto para alunos com dificuldades noutras línguas como para aqueles com um elevado nível de inglês — e a distribuição de materiais informativos em dias de portas abertas. Foi igualmente sublinhada a importância de programas como o Erasmus, que permitem dar visibilidade às possibilidades académicas e profissionais associadas ao português, bem como da realização das provas Camões Júnior como elemento de motivação e continuidade.
A mesa abordou também diversas questões estruturais, como a presença ainda limitada do português em muitos centros, a concorrência com outras matérias na oferta educativa, a falta de continuidade entre etapas e a escassez de pessoal especificamente formado. Neste sentido, destacou-se a necessidade de reforçar a comunicação com as faculdades de Filologia e Tradução, no nível das saídas profissionais associadas ao português.
Do ponto de vista didático, sublinhou-se a carência de manuais que trabalhem a intercompreensão e apresentem o português como uma língua global, reforçando a necessidade de criação de materiais específicos adaptados ao contexto galego. Outros temas recorrentes foram o papel das excursões e viagens de estudo, a importância de atividades partilhadas entre centros e a colaboração com entidades como o Instituto Camões, que disponibiliza propostas educativas para as escolas.
Formação Profissional: consolidar o Módulo de Habilidades Comunicativas
O grupo de Formação Profissional centrou a sua discussão na necessidade de consolidar o novo módulo de Habilidades Comunicativas em português, o que implica uma atuação urgente em dois eixos principais.
Por um lado, considerou-se fundamental reforçar a divulgação da oferta educativa de português para a lecionação deste módulo em todos os centros com Formação Profissional, especialmente naqueles que já oferecem português no ensino secundário ou que dispõem de secções bilingues ou ciclos plurilingues com esta língua. Com esse objetivo, a DPG entrará em contacto, via correio eletrónico, com os centros envolvidos, informando sobre as características do módulo e os passos a seguir para a sua implementação, com base numa carta redigida pelo sócio Iago Bragado.
Paralelamente, será promovido um vídeo, em colaboração com a Ilha Bufarda, que evidencie as vantagens de estudar português na Formação Profissional, tomando como exemplo duas experiências já em curso com resultados muito positivos: o IES São Clemente e o CIFP Ângelo Casal de Monte Alto.
Por outro lado, destacou-se a importância de criar uma aula virtual em Moodle, com materiais de base organizados por competências comunicativas, que possam ser facilmente adaptados por cada docente às diferentes famílias profissionais, contribuindo assim para a consolidação e sustentabilidade do módulo.
Escolas Oficiais de Idiomas: questões pedentes
Na mesa redonda dedicada às Escolas Oficiais de Idiomas, foi consensual que o principal problema que estas enfrentam atualmente é a escassez de professorado nas listas de interinidades e substituições. Esta situação tem provocado, nos últimos anos, que baixas ou reduções do professorado efetivo permaneçam sem substituição durante longos períodos, causando graves inconvenientes a toda a comunidade educativa.
Após debate, concordou-se em propor à Administração algumas medidas que poderão contribuir para resolver esta situação: a aceitação nas listas de pessoas com formação em Filologia Portuguesa ou Tradução e Interpretação de Língua C Português, ou com um curso superior em Línguas acompanhado de um diploma de nível C2 em português; e, de forma excecional, a admissão numa única convocatória de pessoas sem o Mestrado em Professorado, desde que o obtenham no prazo indicado pela Administração.
Por último, defendeu-se a necessidade de assentar e estender o ensino do português nas Escolas Oficiais de Idiomas, começando por estabelecer a sua oferta em centros onde ainda não existe: Monforte, Viveiro e Ribadeo.
Na mesa conjunta
O encontro concluiu com uma mesa conjunta na qual foram abordados temas como a aquisição da especialidade, a criação de departamentos, a participação nos órgãos de coordenação pedagógica, a presença do português nas provas de acesso à universidade e a necessidade de reforçar as redes de colaboração entre centros, níveis educativos e instituições.
A DPG valoriza muito positivamente este encontro, que permitiu o conhecimento mútuo de cerca de cinquenta pessoas dedicadas profissionalmente ao ensino do português. A associação manifesta ainda a vontade de coordenar, num horizonte próximo, novos encontros que contribuam para alargar e fortalecer o seu tecido associativo.